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Feb 07 2008

Os Sonhadores e os cigarros




Published by arnaldodelgado at 12:33 am under cronicas

Como choviam pingos do tamanho de meteoritos na minha derradeira semana de férias paulistanas e isso me impossibilitava até de ir ao boteco em frente comprar pão, resolvi rever “Os Sonhadores[bb]” pela quadragésima terceira vez, se não me falham a memória e a matemática (e ambas falham sim, e muito). O filme é uma verdadeira pérola do cinema mundial[bb], daqueles que quando saem em DVD a gente nem liga de pagar R$48,99 (mesmo sabendo que meses depois ele vai estar numa banca tosca em uma loja de departamentos, pedindo socooro entre milhares de “A casa dos espíritos[bb]” e “Tomates verdes fritos[bb]“). Mas se a gente pode falar sério uma única vez na vida, o fato é que o filme merece ser visto. Fotografia, roteiro, atores…enfim, meu escasso mas exigente conhecimento de cinema me permite a prepotência de dizer que se trata da melhor performance de Bertolucci desde “Assédio”. Filme no DVD, cobertor até o pescoço, misto-quente (dois!) e chocolate, lembre do cigarro.

Nem um. Nada. Necas, zero - quantidade igua ao que eu tinha no bolso em dinheiro. Caralho. Não tinha como, foi batendo aquele desespero, aquela asfixia que só fumante que não tem cigarro sabe o que é. Me arrisco, aperta o play, bosta! Primeiras cenas: Isabelle (Eva Green) e Théo (Louis Garrel) fumando. Dentro da Cinemateca Francesa. (Pausa. Acendo um cigarro[bb] pra continuar a crônica). Phuta-que-o-pariu. Estava ficando impossível. Mais filme, mais cigarros e mais vontade. E isso foi o filme inteiro. In-tei-ri-nho. Um caos. Mas o filme não é melhor ou pior por causa disso (na verdade, acho que os fumantes se sentem mais íntimos daqueles jovens cinéfilos pseudo-alternativos e tabagistas inveterados, mas longe de mim afastar do filme os saudáveis ou os cri-cris).

Acabado o filme, acabei me lembrando da tal proibição do fumo em lugares fechados na França. Tá, tá, eu sei que alguém vai se levantar e falar da falta de educação e do fumo passivo e da fumaça e do respeito e blá blá blá. Não se trata disso. A questão que me coloco é: com tantas coisas muito mais importantes pra serem revistas, vão proibir algo que depende primitivamente de uma coisinha bem delicada e sutil chamada bom senso. Se os franceses são ogros que baforam na sua lata enquanto você desgusta suavemente sua mousse de chocolate meio-amargo, não é uma questão de ordem mundial. Nem uma calamidade nem tragédia nem nem. Acho que você tem toda a liberdade pra se levantar e sair do recinto. Até porque esse papinho gambá de área para fumantes é balela. Ou alguém já viu fumaça fazer curva, “opa, daqui não posso passar porque a tia ali é alérgica”.

Ainda acredito que a política devia se preocupar com coisas um tanto mais essenciais. E o racismo na França, está onde? Será que o desrespeito com os estrangeiros foi apagado junto com os últimos cigarros fumados dentro dos cafés e das boates de Paris. Duvide-ou-dó. A fumaça que eu sopro polui? E as colossais torres das indústrias, que a cada dia alargam o rombo na camada de ozônio (maior que o dos cofres públicos brasileiros)? Acho que passa da hora da política mundial rever onde mete sua colher de pau. Por mim, os jovens protestantes do filme podiam lançar um molotov na cabeça desse tipo de gente. E depois entrar no cinema, sentar confortavelmente e acender aquele tão desejado e comentado cigarro.

Como faço nesse exato momento. Aproveito enquanto posso. Afinal, se a moda pega…Au revoir.



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